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14 SET
2017
Bunkers: onde os ricos se escondem

Se antes eles serviam para guardar armamentos ou proteger chefes de estado, os complexos de segurança agora abrigam milionários com medo do fim do mundo.

Nos anos 1960, no auge da Guerra Fria entre os Estados Unidos e a antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), o então presidente americano, John Kennedy (1917-1963), recomendou que a população procurasse abrigo “o mais rápido possível”. Era um claro sinal de que as ameaças entre ele e o então primeiro-ministro soviético, Nikita Kruschev (1894-1971), passariam do discurso para a ação – o que quase aconteceu na chamada crise dos mísseis, em 1962, que botou o mundo em alerta. Passadas quase seis décadas, o temor do “fim do mundo” continua a assombrar gente de todos os lugares, mas agora as ameaças não estão apenas concentradas nas disputas entre potências.

O mundo pode acabar, mas não pode faltar vinho. No Oppidum, encravado em um vale montanhoso na República Tcheca, os quartos contam com grandes telas de LED, que reproduzem belas paisagens, e uma grande adega recheada com as melhores safras



Além do tom belicoso de líderes como o presidente americano Donald Trump, o presidente russo Vladimir Putin e o ditador norte-coreano Kin Jong-un, outros componentes passaram a amedrontar a população: ataques terroristas, crescimento populacional, catástrofes biológicas, terremotos, tsunamis e doenças contagiosas com poder de se espalhar como rastro de pólvora. Com tantas variáveis, os chamados ultra-ricos deixaram de desejar apenas aquelas coberturas, acima dos simples mortais e bem próximas do céu, para reservarem um lugar debaixo da terra. Mas não em um buraco qualquer.

Muitos têm desembolsado milhões de dólares por um espaço em um bunker de luxo. “A maioria dos meus clientes é formada por médicos, engenheiros e empresários que têm filhos”, diz Larry Hall, CEO e idealizador do Survival Condo, um condomínio de apartamentos adaptados em um antigo silo de mísseis nucleares no Kansas, nos Estados Unidos. Hall comprou o lugar, usado pelo exército entre 1961 e 1965, por apenas US$ 300 mil, em 2008, e investiu US$ 20 milhões para transformá-lo radicalmente. “Depois dos ataques ao World Trade Center, em 11 de setembro de 2001, percebi que tinha de fazer isso”, diz Hall.

O Vivos One, na Alemanha, faz parte de investimentos de US$ 500 milhões do empresário americano Robert Vicino



Os apartamentos construídos pela Survival Condo estão espalhados em 15 andares debaixo da terra e seus preços variam entre US$ 1,5 milhão e US$ 5 milhões. Todas as unidades já foram vendidas. “Agora estamos construindo em um silo ao lado. Mais de 50% da obra já foi concluída e metade já está vendida”, diz Hall. Tudo no complexo é pensado para acomodar os proprietários por, no mínimo, três anos no caso de uma hecatombe nuclear. Os filtros por onde passam a água e o ar que circulam no ambiente contam com proteção Nuclear, Biológica e Química (NBQ). Tudo alimentado por geradores e também por meio de energia eólica. O lugar também conta com espaços para o cultivo de uma horta hidropônica e com tanques para a criação de tilápia.

Antigos depósitos de mísseis em Dakota do Sul, nos Estados Unidos, agora servem de abrigo no condomínio Vivos xPoint



Os proprietários não costumam morar no bunker, mas estão relativamente próximos. Se uma guerra ou um ataque for iniciado, o condomínio dispõe de uma equipe de segurança treinada para resgatar os donos dos apartamentos, a bordo de veículos blindados, num raio de 600 km. Em momentos críticos, de ataques nucleares ou biológicos, os “moradores” também não podem sair na hora que quiserem. Para deixar o local, é necessária a permissão da diretoria do complexo. Os espaços são pensados para que isso não seja preciso. Os apartamentos, com 160 metros quadrados, possuem três quartos, dois banheiros, cozinha, sala de jantar e uma grande sala de estar. No lugar de janelas, telas de LED mostram a paisagem do exterior capturada por câmeras do Survival Condo. Há também piscina, academia de ginástica, parede de escalada e até uma área para passear com os cachorros. Um ambiente para a prática de tiro completa a experiência dos moradores, que são obrigados a fazer um curso de sobrevivência. “É totalmente seguro contra ataques nucleares”, diz Hall.

O Survival Condo, no Kansas, conta com uma equipe tática que, em caso de catástrofe, busca o proprietário a bordo de veículos blindados. À direita, a entrada do complexo que, nos anos 1960, guardava mísseis nucleares



Diante da paranoia que tem feito centenas de pessoas gastarem milhões de dólares com apartamentos em bunkers, cabe uma pergunta. Por que este movimento, que havia sido enterrado com a Guerra Fria, voltou com tudo? A estudiosa Andrea Bisker, diretora da Stylus, consultoria inglesa de tendência e inovação, elenca como um dos principais motivos um movimento derivado do fim da Guerra Fria. Trata-se do Volatility, Uncertainty, Complexity and Ambiguity (VUCA), ou Volatilidade, Incerteza, Complexidade e Ambiguidade, numa tradução livre, termo cunhado pelo exército americano para designar o mundo multilateral e as incertezas que ele gera. “Os ultra-ricos estão mais paranoicos. Os bunkers servem como uma proteção”, diz Bisker. Ela destaca também o mundo big brother, com câmeras espalhadas em todos os lugares, sem que ninguém tenha privacidade. Nem mesmo dentro de casa. Recentemente, a top model Gisele Bündchen foi flagrada em um momento íntimo com o seu marido Tom Brady. As cenas, expostas na internet, foram capturadas por um drone, que passou pelos altos muros e por um séquito de seguranças que estava ali para proteger o casal-celebridade.

Para evitar que coisas desse tipo ocorram com seus clientes, os condomínios formados por bunkers seguem a mesma cartilha. Por fora, ou têm o aspecto de bases militares ou se parecem com grandes espaços industriais. O conforto fica só debaixo da terra. O grupo americano Vivos conta com três complexos com esse perfil. Um deles, chamado de Vivos xPoint, está em Dakota do Sul, nos EUA, e funciona em um antigo depósito de munições com 575 bunkers. Mais modesto, para não dizer espartano, ele conta com academia, spa, jardins hidropônicos e espaço para receber, cerca de 20 pessoas por bunker. O outro empreendimento da empresa, O Vivos Europa One, em Rothenstein, na Alemanha, é mais luxuoso, tem espaço para 1 mil pessoas, e mescla a área outdoor com a indoor.

Nem parece um bunker: no Vivos One, da Alemanha, toda a decoração é feita para que o cliente se sinta numa casa como qualquer outra



Há piscina, restaurante, academia de ginástica, serviço de helicóptero e apartamentos que, diante de tanto luxo, poucos imaginariam vê-los em um buraco – o que faz qualquer pessoa esquecer que aquele ambiente é preparado para uma eventual catástrofe. Por lá, os “abrigos” custam entre US$ 1 milhão e US$ 2 milhões. Por último, encontra-se o Vivos Asiana, que está sendo construído na Coreia do Sul, hoje à beira de uma guerra com a Coreia do Norte. Com aproximadamente 23,2 mil metros quadrados, ele poderá abrigar 500 pessoas e será dotado de um cofre com capacidade para guardar todo o material genético dos cidadãos sul-coreanos. A expectativa é a de que o bunker esteja pronto até 2019. “Estamos rezando para termos tempo suficiente para concluir”, diz Robert Vicino, o fundador e idealizador da Vivos.

Vicino diz que começou a pensar nestes espaços a partir de 1982. Foi quando ele teve uma visão e “Deus disse para construir bunkers debaixo da terra para salvar milhares de pessoas da próxima fase de extinção na Terra”. Desde então, Vicino já investiu US$ 500 milhões no negócio. Indagado pela reportagem sobre o porquê de uma pessoa morar em um bunker, ele é enfático: “Ninguém quer morar em um bunker, mas eles irão quando a catástrofe ocorrer”, diz Vicino. E reforça. “Diante do inevitável sofrimento que a população fora dos bunkers passará, eles irão.” As catástrofes previstas pelo empreendedor americano giram ao redor de ataques nucleares ou químicos, explosões causadas por asteroides, mudanças climáticas, deslocamento dos polos, erupções vulcânicas, tsunamis, entre outras. Mas a preocupação com o fim do mundo como conhecemos não se restringe aos americanos.

O Survival Condo tem piscina e academia para os moradores que vivem até 15 andares debaixo da terra



Um empresário tcheco também criou uma espécie de oásis debaixo da terra. Batizado de Oppidum, ele está na República Tcheca e, de acordo com seus idealizadores, é, entre todos os bunkers disponíveis no mercado, o que consegue reunir a mais alta segurança com sofisticação. Em uma área de 30 mil metros quadrados, encravado em um vale de montanhas, ele é protegido por muros altos, câmeras de vigilância e sensores que detectam movimento. Os apartamentos têm entre 160 metros quadrados e 620 metros quadrados, os quartos contam com telas de LED representando janelas e as áreas comuns simulam a vida do lado de fora.

Jardins e piscina com luzes artificiais que acompanham o dia e a noite, cinema, biblioteca, hospital e uma grande adega fazem parte dos mimos. Os donos de coleções de arte também podem armazenar as obras em grandes cofres. De acordo com o fundador, o empresário do setor imobiliário Jakub Zamrazil, o Oppidum garante suprimentos por 10 anos – sem que seja necessário por os pés para fora. A segurança é comandada pelo general aposentado Andor Sándor. “Este bunker representa o estado da arte na combinação do luxo, da segurança e do conforto”, disse Sándor em uma entrevista à revista americana Forbes. Também representa uma ode à paranoia e ao estilo de vida excêntrico de quem espera sempre pelo pior sem abrir mão da boa vida.



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